NBR 8800 — Barras Tracionadas

Dimensionamento a tração conforme ABNT NBR 8800:2008, Seção 5.2

O dimensionamento de barras tracionadas na NBR 8800 considera dois estados-limite últimos: escoamento da seção bruta e ruptura da seção líquida. A resistência de cálculo é o menor valor entre ambos. Este artigo cobre a teoria, os coeficientes, e dois exemplos resolvidos passo a passo.

Modos de Falha

1. Escoamento da seção bruta

Plastificação generalizada ao longo do comprimento — estado limite dúctil.

Nt,Rd=Agfyγa1N_{t,Rd} = \frac{A_g \cdot f_y}{\gamma_{a1}}

onde AgA_g é a área bruta, fyf_y a resistência ao escoamento, e γa1=1,10\gamma_{a1} = 1{,}10.

2. Ruptura da seção líquida

Fratura na região dos furos — estado limite frágil, portanto com coeficiente de segurança mais elevado.

Nt,Rd=CtAnfuγa2=Aefuγa2N_{t,Rd} = \frac{C_t \cdot A_n \cdot f_u}{\gamma_{a2}} = \frac{A_e \cdot f_u}{\gamma_{a2}}

onde AnA_n é a área líquida, CtC_t o coeficiente de redução por "shear lag", Ae=CtAnA_e = C_t \cdot A_n a área efetiva,fuf_u a resistência à ruptura, e γa2=1,35\gamma_{a2} = 1{,}35.

Resistência final

Nt,Rd=min ⁣(Agfyγa1,  Aefuγa2)N_{t,Rd} = \min\!\left(\frac{A_g \cdot f_y}{\gamma_{a1}},\; \frac{A_e \cdot f_u}{\gamma_{a2}}\right)

Área Líquida (An)

Os furos são considerados com diâmetro df=db+2 mmd_f = d_b + 2\text{ mm} (furo padrão), onde dbd_b é o diâmetro nominal do parafuso.

An=AgndftA_n = A_g - n \cdot d_f \cdot t

nn = número de furos na seção crítica, tt = espessura do elemento onde estão os furos.

Furos Defasados — Regra de Cochrane

Quando os furos são dispostos em ziguezague, a largura líquida é calculada pela expressão de Cochrane:

bn=bdf+s24gb_n = b - \sum d_f + \sum \frac{s^2}{4g}

onde ss é o espaçamento longitudinal (passo) e gg o espaçamento transversal (gauge) entre furos consecutivos na linha em ziguezague.

Coeficiente de Redução Ct (Shear Lag)

Quando nem todos os elementos da seção transversal estão conectados, a transferência de esforço é parcial. O coeficiente CtC_t reduz a área líquida para refletir essa deficiência.

Ct=1xˉLcC_t = 1 - \frac{\bar{x}}{L_c}

xˉ\bar{x} = excentricidade da ligação (distância do centroide do elemento conectado ao plano de cisalhamento) e LcL_c = comprimento da ligação.

Tabela de valores de Ct

CasoCt
Todos os elementos conectados1,00
W/I com b_f ≥ 2d/3, ligação pelas mesas0,90
W/I com b_f < 2d/3, ligação pelas mesas0,85
Cantoneiras com 4 ou mais parafusos0,80
Cantoneiras com 2 ou 3 parafusos0,60
NBR 8800 permite usar o maior valor entre a fórmula e a tabela.

Limite de Esbeltez

Embora não seja um estado-limite último, a norma recomenda limitar a esbeltez de barras tracionadas:

Lr300\frac{L}{r} \leq 300

onde LL é o comprimento destravado e rr o menor raio de giração. Valores acima de 300 indicam barras excessivamente flexíveis, sujeitas a vibração e deformações por peso próprio.

Exemplo Resolvido 1 — Cantoneira

Dados: Cantoneira L 76 × 76 × 6,4 mm, aço ASTM A36 (fy=250f_y = 250 MPa, fu=400f_u = 400 MPa), 3 parafusos M20 em uma aba, L=3000L = 3000 mm, Lc=130L_c = 130 mm (3 × 65 mm entre furos extremos).

Propriedades: Ag=929A_g = 929 mm², rmin=15,0r_{\min} = 15{,}0 mm, xˉ=21,2\bar{x} = 21{,}2 mm.

Passo 1 — Esbeltez

Lr=300015,0=200300  \frac{L}{r} = \frac{3000}{15{,}0} = 200 \leq 300 \;\checkmark

Passo 2 — Escoamento

Nt,Rd,1=929×2501100=211,1 kNN_{t,Rd,1} = \frac{929 \times 250}{1100} = 211{,}1 \text{ kN}

Passo 3 — Área líquida

df=20+2=22d_f = 20 + 2 = 22 mm. Um furo na seção crítica (1 aba conectada):

An=9291×22×6,4=788,2 mm2A_n = 929 - 1 \times 22 \times 6{,}4 = 788{,}2 \text{ mm}^2

Passo 4 — Coeficiente Ct

Pela fórmula: Ct=121,2/130=0,837C_t = 1 - 21{,}2/130 = 0{,}837. Pela tabela (cantoneira, 3 parafusos): Ct=0,60C_t = 0{,}60. Adota-se o maior: Ct=0,837C_t = 0{,}837.

Ae=0,837×788,2=659,7 mm2A_e = 0{,}837 \times 788{,}2 = 659{,}7 \text{ mm}^2

Passo 5 — Ruptura

Nt,Rd,2=659,7×4001350=195,5 kNN_{t,Rd,2} = \frac{659{,}7 \times 400}{1350} = 195{,}5 \text{ kN}

Resultado

Nt,Rd=min(211,1;  195,5)=195,5 kNN_{t,Rd} = \min(211{,}1;\; 195{,}5) = \boxed{195{,}5 \text{ kN}}

A ruptura da seção líquida governa o dimensionamento.

Exemplo Resolvido 2 — Perfil W

Dados: W 250 × 32,7, aço ASTM A572 Gr 50 (fy=345f_y = 345 MPa, fu=450f_u = 450 MPa), parafusos M22 nas mesas,L=4500L = 4500 mm.

Propriedades: Ag=4190A_g = 4190 mm², d=259d = 259 mm, bf=146b_f = 146 mm, tf=9,1t_f = 9{,}1 mm, tw=6,1t_w = 6{,}1 mm, ry=33,5r_y = 33{,}5 mm.

Passo 1 — Esbeltez

Lry=450033,5=134,3300  \frac{L}{r_y} = \frac{4500}{33{,}5} = 134{,}3 \leq 300 \;\checkmark

Passo 2 — Escoamento

Nt,Rd,1=4190×3451100=1314,1 kNN_{t,Rd,1} = \frac{4190 \times 345}{1100} = 1314{,}1 \text{ kN}

Passo 3 — Área líquida

df=22+2=24d_f = 22 + 2 = 24 mm. Dois furos por mesa, duas mesas: 4 furos.

An=41904×24×9,1=3316,4 mm2A_n = 4190 - 4 \times 24 \times 9{,}1 = 3316{,}4 \text{ mm}^2

Passo 4 — Coeficiente Ct

Ligação pelas mesas, bf=146<2d/3=172,7b_f = 146 < 2d/3 = 172{,}7 mm, portanto Ct=0,85C_t = 0{,}85.

Ae=0,85×3316,4=2818,9 mm2A_e = 0{,}85 \times 3316{,}4 = 2818{,}9 \text{ mm}^2

Passo 5 — Ruptura

Nt,Rd,2=2818,9×4501350=939,6 kNN_{t,Rd,2} = \frac{2818{,}9 \times 450}{1350} = 939{,}6 \text{ kN}

Resultado

Nt,Rd=min(1314,1;  939,6)=939,6 kNN_{t,Rd} = \min(1314{,}1;\; 939{,}6) = \boxed{939{,}6 \text{ kN}}

Novamente a ruptura governa. Para perfis W ligados pelas mesas, a redução por shear lag é significativa.

Quando o Escoamento Governa?

O escoamento governa quando a capacidade da seção bruta é menor que a da seção líquida. Para aço A572 Gr 50 (fy/fu=345/450f_y/f_u = 345/450), igualando as duas expressões:

Agfyγa1=CtAnfuγa2\frac{A_g \cdot f_y}{\gamma_{a1}} = \frac{C_t \cdot A_n \cdot f_u}{\gamma_{a2}}

Resolvendo: CtAnAg>fyγa2fuγa1=345×1,35450×1,10=0,941C_t \cdot \frac{A_n}{A_g} > \frac{f_y \cdot \gamma_{a2}}{f_u \cdot \gamma_{a1}} = \frac{345 \times 1{,}35}{450 \times 1{,}10} = 0{,}941. Ou seja, para A572 Gr 50, o escoamento só governa quando Ct(An/Ag)>0,94C_t \cdot (A_n/A_g) > 0{,}94 — o que exige poucos furos e ligação completa.

Comparação com Outras Normas

AspectoNBR 8800AISC 360Eurocode 3
Coeficiente shear lagCtC_tUU (idêntico)Via β\beta (tabelas)
Fator na seção líquida1,001,000,90
Segurança (escoamento)γa1=1,10\gamma_{a1} = 1{,}10ϕt=0,90\phi_t = 0{,}90γM0=1,00\gamma_{M0} = 1{,}00
Segurança (ruptura)γa2=1,35\gamma_{a2} = 1{,}35ϕt=0,75\phi_t = 0{,}75γM2=1,25\gamma_{M2} = 1{,}25
A NBR 8800 e o AISC 360 compartilham a mesma base teórica. O Eurocode 3 aplica um fator adicional de 0,9 na área líquida (EN 1993-1-1, §6.2.3), resultando em capacidades de ruptura ligeiramente menores.

Checklist de Dimensionamento

  1. Verificar esbeltez: L/r300L/r \leq 300
  2. Calcular Nt,Rd,1N_{t,Rd,1} (escoamento da seção bruta)
  3. Determinar diâmetro dos furos df=db+2d_f = d_b + 2 mm
  4. Calcular área líquida AnA_n (verificar seções em ziguezague)
  5. Determinar CtC_t pela fórmula e pela tabela, adotar o maior
  6. Calcular área efetiva Ae=CtAnA_e = C_t \cdot A_n
  7. Calcular Nt,Rd,2N_{t,Rd,2} (ruptura da seção líquida)
  8. Resistência final: Nt,Rd=min(Nt,Rd,1,  Nt,Rd,2)N_{t,Rd} = \min(N_{t,Rd,1},\; N_{t,Rd,2})
  9. Comparar com esforço solicitante: Nt,SdNt,RdN_{t,Sd} \leq N_{t,Rd}
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