Contraventamento em Estruturas de Aço: Tipos
Saiba tudo sobre sistemas de contraventamento em aco: contraventamento em X, chevron, porticos rigidos e porticos excentricamente contraventados. Aborda limites de deriva de andar, forcas de dimensionamento e quando usar cada sistema.
O que e um sistema de contraventamento em uma estrutura de aco?
Um sistema de contraventamento e o conjunto de elementos estruturais que resistem a forcas laterais — vento, sismica e cargas nocionais — e as transferem para a fundacao. Sem um sistema de contraventamento, um portico de aco desabaria lateralmente sob cargas laterais mesmo moderadas.
Toda edificacao precisa de um sistema completo de resistencia a forcas laterais (SRFL) em pelo menos duas direcoes ortogonais. A escolha do sistema afeta: - Rigidez: O quanto o edificio oscila (deriva de andar) - Resistencia: A carga lateral maxima que o portico pode resistir - Ductilidade: Quanta energia o portico pode absorver antes da ruina - Arquitetura: Se aberturas e corredores ficam obstruidos
Os tres sistemas principais sao: 1. Porticos contraventados — Diagonais transferem forcas laterais como esforcos axiais 2. Porticos rigidos — Ligacoes rigidas viga-pilar resistem a forcas laterais por flexao 3. Paredes de cisalhamento — Chapas de aco ou paredes de concreto funcionam como consolos verticais
A maioria das edificacoes em aco usa porticos contraventados porque sao rigidos, eficientes e economicos. Porticos rigidos sao usados quando requisitos arquitetonicos impedem o uso de diagonais.
Quais tipos de porticos contraventados sao usados em edificacoes de aco?
Porticos contraventados sao classificados pela geometria das diagonais:
Contraventamento em X (cruzado) Duas diagonais formam um X no vao. Uma diagonal esta tracionada enquanto a outra esta comprimida para qualquer direcao da carga lateral. Esta e a configuracao mais rigida porque ambas as diagonais participam. Comum em edificacoes industriais de baixa altura onde restricoes arquitetonicas sao minimas.
Contraventamento chevron (V ou V invertido) Um V unico (ou V invertido) conecta o ponto medio da viga aos pilares no nivel do piso (ou vice-versa). A viga deve ser dimensionada para a forca vertical desbalanceada quando uma diagonal flamba. A AISC 341 (sismica) exige que a viga resista a forca de escoamento plena em tracao de uma diagonal mais 30% da capacidade pos-flambagem da outra.
Diagonal unica Uma diagonal por vao, alternando a direcao entre pavimentos para evitar deriva acumulada em uma direcao. Simples, porem menos rigida que o contraventamento em X. Aceitavel para dimensionamento somente ao vento (nao sismico).
Contraventamento em K As diagonais se encontram na meia-altura do pilar. Nao permitido em projeto sismico porque a falha do pilar na interseccao da diagonal causaria colapso progressivo. Usado apenas em regioes de baixa sismicidade com vento governante.
Contraventamento excentrico (EBF) A diagonal se conecta a viga afastada do pilar, criando um segmento curto chamado "link" na viga. O link escoa por cisalhamento, proporcionando ductilidade enquanto o restante do portico permanece elastico. R = 8.0 — mesma ductilidade que porticos rigidos, porem muito mais rigido.
Como dimensionar uma diagonal de contraventamento?
As diagonais de contraventamento transferem o cortante lateral como forca axial (tracao ou compressao). O dimensionamento depende de a ligacao permitir que a diagonal resista tanto a tracao quanto a compressao (tipo contato) ou somente a tracao.
Dimensionamento a compressao (AISC Chapter E)
A diagonal deve resistir a forca lateral fatorada resolvida ao longo da diagonal:
P_u = V_story / (n × cos θ)
Onde V_story e o cortante do andar, n e o numero de diagonais no andar e θ e o angulo da diagonal com a horizontal.
Exemplo — Vao com contraventamento em X de um unico pavimento
- Largura do vao: 6 m, altura do andar: 4 m
- Comprimento da diagonal: √(6² + 4²) = 7.21 m
- Angulo da diagonal: θ = arctan(4/6) = 33.7°
- Cortante do andar: V_u = 150 kN
- Forca na diagonal: P_u = 150 / (2 × cos 33.7°) = 150 / 1.664 = 90.1 kN por diagonal
Para uma diagonal comprimida, verificar a flambagem: - Tentar HSS 127×127×6.4: A = 2850 mm², r = 48.5 mm - KL/r = 1.0 × 7210 / 48.5 = 148.7 - F_cr (regime elastico): 0.877 × π²(200000)/(148.7)² = 0.877 × 89.3 = 78.3 MPa - φP_n = 0.90 × 78.3 × 2850 × 10⁻³ = 201 kN > 90.1 kN ✓
Contraventamento somente a tracao
Em algumas configuracoes, apenas a diagonal tracionada e considerada efetiva (a diagonal comprimida flamba e e desconsiderada). Isso duplica a forca na diagonal: P_u = 150 / (1 × cos 33.7°) = 180.3 kN. Contraventamento somente a tracao usa elementos mais leves (tirantes ou cantoneiras pequenas), porem exige o dobro de diagonais.
Quais sao os limites de deriva de andar para porticos de aco sob cargas laterais?
A deriva de andar e o deslocamento lateral de um pavimento em relacao ao pavimento inferior. Deriva excessiva danifica divisorias, revestimentos e causa desconforto aos ocupantes.
Limites de deriva por vento
Nenhuma norma isolada impoe limites de deriva por vento, mas a pratica comum segue: - H/400 por andar (maioria dos edificios comerciais) - H/600 para ocupacoes sensiveis (hospitais, laboratorios) - H/200 para edificacoes industriais com revestimento flexivel
Onde H e a altura do andar.
Limites de deriva sismica (ASCE 7-22 Table 12.12-1)
- Categoria de Risco I-II: 0.020 × h_sx (2% da altura do andar)
- Categoria de Risco III: 0.015 × h_sx
- Categoria de Risco IV: 0.010 × h_sx
A deriva sismica e verificada usando deslocamentos amplificados: δ_x = C_d × δ_xe / I_e, onde C_d e o fator de amplificacao de deslocamento e δ_xe e o deslocamento elastico obtido com a forca sismica reduzida.
Como reduzir a deriva
- Enrijecer o contraventamento — Usar secoes maiores nas diagonais ou adicionar mais vaos contraventados
- Adicionar porticos outrigger — Conectar o nucleo aos pilares perimetrais nos pavimentos tecnicos
- Aumentar a rigidez dos pilares — Pilares maiores reduzem a flexibilidade do portico
- Usar sistemas duais — Combinar porticos contraventados e porticos rigidos; a interacao reduz a deriva abaixo do que cada sistema alcancaria isoladamente
A deriva frequentemente governa o dimensionamento de edificios altos mesmo quando a resistencia esta atendida. Para edificios acima de 10 pavimentos, verificacoes de deriva devem ser feitas no inicio para evitar reprojecoes tardias.
Quando usar um portico rigido em vez de um portico contraventado?
Porticos rigidos resistem a forcas laterais por meio de ligacoes rigidas viga-pilar (sem diagonais). Sao usados quando:
Razoes arquitetonicas - Plantas livres sem obstrucoes entre pilares - Grandes fachadas de vidro ou vitrines que nao comportam diagonais - Corredores que precisam passar por vaos contraventados - Fachadas onde diagonais sao inaceitaveis esteticamente
Vantagens para projeto sismico - Porticos Rigidos Especiais (SMF) tem R = 8.0, o maior fator de modificacao de resposta - Alta ductilidade por escoamento controlado das rotulas plasticas nas vigas - Sem problemas de flambagem de diagonais (uma preocupacao em CBFs durante grandes sismos)
Desvantagens - Muito mais flexiveis que porticos contraventados — a deriva frequentemente governa - Secoes de vigas e pilares mais pesadas necessarias para resistir a flexao - Ligacoes de momento soldadas caras (soldas de penetracao total) - A zona de painel do pilar deve ser verificada ao cisalhamento (frequentemente requer chapas de reforco)
Sistemas combinados
Muitas edificacoes combinam ambos os sistemas: - Porticos contraventados no nucleo (ao redor de elevadores/escadas) - Porticos rigidos no perimetro (para abertura arquitetonica)
Este sistema dual fornece alta rigidez do nucleo contraventado e alta ductilidade do portico rigido. A ASCE 7 permite um fator R maior para sistemas duais quando o portico rigido pode resistir independentemente a pelo menos 25% da forca sismica de projeto.
Como dimensionar as ligacoes do contraventamento?
As ligacoes das diagonais devem transferir a forca total da diagonal (tracao e compressao) e acomodar a rotacao da diagonal durante a flambagem. A chapa gusset e o elemento critico.
Dimensionamento da chapa gusset
A chapa gusset conecta a diagonal ao no viga-pilar. Verificacoes de projeto:
- Secao de Whitmore — A largura efetiva na extremidade do grupo de parafusos ou solda: W = 2 × L_g × tan(30°) + w_brace. Verificar escoamento a tracao: φR_n = 0.90 × F_y × W × t_g.
- Flambagem do gusset — O comprimento destravado da extremidade da diagonal ate a borda da viga/pilar. Usar o metodo de Thornton: media de L₁, L₂, L₃ (distancias aos apoios mais proximos). Verificar compressao: φR_n = φ × F_cr × W × t_g.
- Ruptura por bloco de cisalhamento — Ao longo do padrao de parafusos ou grupo de solda.
- Verificacoes na viga e no pilar — O gusset transfere forcas para a viga e o pilar. Verificar escoamento local da alma, enrugamento da alma e flexao da mesa na interface do gusset.
Ligacao diagonal-gusset
Para diagonais em perfil tubular (HSS): rachar a extremidade do tubo e inserir o gusset, depois soldar em filete nos dois lados. O comprimento da solda deve desenvolver a forca da diagonal com o fator de atraso de cisalhamento U aplicado.
Para diagonais em cantoneira ou perfil I: parafusar ou soldar na chapa gusset. Verificar ruptura da secao liquida com o fator U apropriado.
Detalhamento sismico
Para SCBF (Porticos Concentricamente Contraventados Especiais), a AISC 341 exige: - A ligacao deve resistir a resistencia ao escoamento esperada R_y × F_y × A_g em tracao - Deve acomodar a rotacao de flambagem da diagonal (folga linear de 2t a partir da linha de dobra do gusset) - Reforco da secao liquida quando U × A_n < A_g
O que e o contraventamento de estabilidade e quanta forca ele requer?
Alem do sistema de resistencia a forcas laterais, membros individuais precisam de contraventamento de estabilidade para prevenir flambagem. O Apendice 6 da AISC define dois tipos:
Contraventamento relativo Um elemento que controla o movimento relativo entre dois pontos de um membro. Exemplo: montantes horizontais entre banzos inferiores de trelicas adjacentes.
Resistencia requerida: P_br = 0.004 × P_r (0.4% da carga axial no membro contraventado) Rigidez requerida: β_br = 2P_r / (φ × L_b)
Contraventamento nodal (pontual) Um elemento que impede o deslocamento lateral em um unico ponto. Exemplo: um escora diagonal de uma viga de piso ate a mesa inferior de uma viga de ponte rolante.
Resistencia requerida: P_br = 0.01 × P_r (1% da carga axial) Rigidez requerida: β_br = 8P_r / (φ × L_b)
Contraventamento lateral de vigas Para vigas em flexao, a mesa comprimida necessita de contraventamento lateral para prevenir flambagem lateral com torcao. A forca de contraventamento e baseada na forca de compressao maxima na mesa: C_f = M_r / h_o.
Elementos comuns de contraventamento de estabilidade
- Tercas e longarinas contraventam vigas de cobertura e pilares de fechamento
- Diafragmas de piso (steel deck + concreto) contraventam todas as vigas de piso
- Contraventamento de mosca (escoras diagonais das tercas ate os banzos inferiores das trelicas) contraventam pilares de porticos
- Tirantes de cumeeira contraventam tercas e longarinas entre porticos
O contraventamento de estabilidade e frequentemente negligenciado no projeto, mas e essencial. Uma viga dimensionada com L_b = espacamento de tercas precisa que essas tercas realmente fornecam contencao lateral — se a ligacao da terca nao consegue resistir a forca de contraventamento, a viga esta destravada.
Como o CalcSteel modela sistemas de contraventamento?
O CalcSteel integra o dimensionamento do sistema lateral ao fluxo de modelagem e analise 3D:
Entrada do contraventamento As diagonais sao modeladas como membros padrao com liberacoes de extremidade rotuladas. O software identifica automaticamente os vaos contraventados e classifica o portico como contraventado ou nao contraventado para cada direcao.
Aplicacao de cargas laterais Cargas de vento (conforme ASCE 7, Eurocode 1 ou NBR 6123) sao geradas automaticamente a partir da envoltoria da edificacao. Cargas sismicas sao calculadas pelo metodo das forcas laterais equivalentes ou pela analise espectral de resposta modal.
Verificacao de deriva A deriva de andar e calculada e exibida para cada combinacao de carregamento. O engenheiro define o limite de deriva (H/400, H/600 ou personalizado), e os resultados sinalizam qualquer andar que o exceda.
Dimensionamento das diagonais Cada diagonal e verificada conforme AISC Chapter E (compressao) e Chapter D (tracao). As forcas de ligacao sao fornecidas para o dimensionamento da chapa gusset. Para projeto sismico, a resistencia ao escoamento esperada (R_y × F_y × A_g) e reportada para o dimensionamento por capacidade das ligacoes.
Contraventamento de estabilidade O motor identifica quais membros atuam como contraventamento de estabilidade e verifica que as forcas de contraventamento conforme o Apendice 6 podem ser transferidas pelas ligacoes.
Otimizacao Se a deriva excede o limite, o otimizador sugere secoes mais rigidas para as diagonais. Se uma diagonal falha em compressao, ele sugere uma secao com KL/r adequado. O otimizador trabalha em todos os vaos contraventados simultaneamente, encontrando a solucao mais leve que atende tanto a resistencia quanto a deriva.
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